![]() |
| Safo e Erina num jardim em Mitilene, Simeon Solomon, 1864 |
![]() |
Sappho and Atthis, Felix d'Eon |
"Morreu quase desconhecida e permaneceu injustamente expurgada da memória coletiva e da história literária até recentemente, seguramente por causa do subtexto lésbico presente em vários dos seus poemas." - in wook
Em 2015, foi homenageada num colóquio internacional na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
Em 2016, o município de Viseu, em parceria com a editora Edições Esgotadas, criou o Prémio de Poesia Judith Teixeira que distingue obras de poesia escritas em português.
Existem, atualmente, duas coletâneas que reúnem a toda obra de Judith Teixeira: "Poesia e Prosa" e "Judith Teixeira - Obras Completas".
Através dos vitrais
ia a luz a espreguiçar-se
em listas faiscantes,
sob as sedas orientais
de cores luxuriantes!
Sons ritmados dolentes,
num sensualismo intenso,
vibram misticismos decadentes
por entre nuvens de incenso.
Longos, esguios, estáticos,
entre as ondas vermelhas do cetim,
dois corpos esculpidos em marfim
soergueram-se nostálgicos,
sonâmbulos e enigmáticos…
Os seus perfis esfíngicos,
e cálidos
estremeceram
na ânsia duma beleza pressentida,
dolorosamente pálidos!
Fitaram-se as bocas sensuais!
Os corpos subtilizados,
femininos,
entre mil cintilações
irreais,
enlaçaram-se
nos braços longos e finos!
..............................................................
E morderam-se as bocas abrasadas,
em contorções de fúria, ensanguentadas!
...............................................................
Foi um beijo doloroso,
a estrebuchar agonias,
nevrótico ansioso,
em estranhas epilepsias!
...............................................................
Sedas esgarçadas,
dispersão de sons,
arco-íris de rendas
irisando tons...
...............................................................
E ficou no ar
a vibrar
a estertorar,
incandescido,
um grito dolorido.
"............................... a dor
só lhe perco o som e a cor
em orgias de morfina!"
Dizem que eu tenho amores contigo!
Deixa-os dizer!...
Eles sabem lá o que há de sublime,
Nos meus sonhos de prazer...
De madrugada, logo ao despertar,
Há quem me tenha ouvido gritar
Pelo teu nome...
Dizem - e eu não protesto -
Que seja qual o for o meu aspeto
Tu estás na minha fisionomia
E no meu gesto!
Dizem que eu me embriago toda em cores
Para te esquecer...
E que de noite pelos corredores
Quando vou passando para te ir buscar;
Levo risos de louca, no olhar!
Não entendem dos meus amores contigo -
Não entendem deste luar de beijos...
- Há quem lhes chame a tara perversa,
Dum ser destrambelhado e sensual!
Chamam-te o génio do mal -
O meu castigo...
E eu em sombras alheio-me dispersa...
E ninguém sabe que é de ti que eu vivo...
Que és tu que doiras ainda,
O meu castelo em ruínas...
Que fazes da hora má, a hora linda
Dos meus sonhos voluptuosos -
Não faltas aos meus apelos dolorosos...
- Adormenta esta dor que me domina!
- Judith Teixeira
In Decadência, 1923