2018/08/04

Retratando Safo

 Safo e Erina num jardim em Mitilene, Simeon Solomon, 1864


Safo e suas alunas na Ilha de Lesbos, Amanda Brewster Sewell, 1891


Sappho and Atthis, Felix d'Eon






Filhas de Safo

Filhas de Safo: Uma História da Homossexualidade Feminina em Portugal | Paulo Drummond Braga | 2011



Sinopse: "Um livro sobre a homossexualidade feminina em Portugal, com recurso a fontes literárias, documentos do Tribunal da Inquisição e legislação civil. Da condenação social à noção de pecado, crime ou doença, tentando identificar as personalidades mais relevantes que amavam outras mulheres. Muito presente na esfera privada, a homossexualidade feminina não terá deixado de lavrar em mosteiros, conventos, recolhimentos, lupanares, hospitais, colégios e prisões, mas igualmente de forma discreta em casas particulares, quer em meios urbanos quer rurais."


Podem adquirir o livro aqui.






Fiquei bastante surpreendida e contente com a existência deste livro. Provavelmente será o principal livro sobre a história da homossexualidade feminina em Portugal, visto que não encontrei mais nenhum. Comprei no dia 29 de janeiro mas ainda não li tudo. E vocês, já conheciam?

Judith Teixeira (1880 - 1959)





Judith Teixeira foi uma escritora e poeta bissexual portuguesa, nascida em Viseu, no dia 25 de janeiro de 1880, que escreveu sobre relações românticas e sexuais entre mulheres nos anos 20.

Exemplares do seu livro Decadência foram apreendidos, juntamente com os livros de António Botto (Canções) e Raul Leal (Sodoma Divinizada), e mandados queimar pelo Governo Civil de Lisboa na sequência de uma campanha, liderada pela conservadora Liga de Ação dos Estudantes de Lisboa, contra "os artistas decadentes, os poetas de Sodoma, os editores, autores e vendedores de livros imorais".

Judith também escreveu para vários jornais, sob o pseudónimo de Lena de Valois, e contribuiu para a "Contemporânea", conceituada revista modernista. Publicou 5 obras, entre 1923 e 1927.


Obras:
  • Decadência. Poemas (1923)
  • Castelo de Sombras. Poemas (1923)
  • Nua. Poemas de Bizâncio (1926)
  • De Mim. Conferência (1926)
  • Satânia. Novelas (1927)



Judith foi diretora da revista Europa em 1925 e escreveu uma palestra, intitulada "De mim. Em que se explicam as minhas razões sobre a Vida, sobre a Estética, sobre a Moral" (1926), provavelmente o único manifesto artístico modernista de autoria feminina no início do século XX em Portugal. 

As relações amorosas entre mulheres retratadas nos seus poemas foram alvo de ataques na imprensa conservadora e moralista, tendo sido descritas como "vergonhas sexuais" e "versalhadas ignóbeis". Na revista pro-fascista "Ordem Nova", em 1926, Marcello Caetano referiu-se ao seu livro Decadência como sendo da autoria "duma desavergonhada chamada Judith Teixeira", regozijando-se que os seus livros tivessem sido apreendidos e queimados.

Em 1927 encontrava-se ausente de Portugal, como se depreende de uma nota inserida no fim do livro Satânia, o último que publicou. Pouco se sabe acerca dos últimos trinta e dois anos da sua vida. Morreu a 17 de Maio de 1959, aos 79 anos, residindo então em Lisboa, no número 3 da Praceta Padre Francisco em Campo de Ourique. Segundo o assento de óbito, morreu viúva, sem deixar filhos nem bens e sem fazer testamento. 

"Morreu quase desconhecida e permaneceu injustamente expurgada da memória coletiva e da história literária até recentemente, seguramente por causa do subtexto lésbico presente em vários dos seus poemas." - in wook

Em 2015, foi homenageada num colóquio internacional na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Em 2016, o município de Viseu, em parceria com a editora Edições Esgotadas, criou o Prémio de Poesia Judith Teixeira que distingue obras de poesia escritas em português.


Existem, atualmente, duas coletâneas que reúnem a toda obra de Judith Teixeira: "Poesia e Prosa" e "Judith Teixeira - Obras Completas".





Poemas Sáficos de Judith Teixeira


Os poemas abaixo foram retirados da Obra Decadência, de 1923, e constam, também, nas coletâneas "Poesia e Prosa" (2015) e "Judith Teixeira - Obras Completas - Lírica" (2016/2017).
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A Estátua


O teu corpo branco e esguio
prendeu todo o meu sentido…
Sonho que pela noite, altas horas,
aqueces o mármore frio
do alvo peito entumecido…


E quantas vezes pela escuridão,
a arder na febre dum delírio,
os olhos roxos como um lírio,
venho espreitar os gestos que eu sonhei…
…………………………………………..
- Sinto os rumores duma convulsão,
a confessar tudo que eu cismei!
………………………………………….
Ó Vénus sensual!
Pecado mortal
do meu pensamento!
Tens nos seios de bicos acerados,
num tormento,
a singular razão dos meus cuidados!


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Perfis Decadentes


Através dos vitrais

ia a luz a espreguiçar-se

em listas faiscantes,

sob as sedas orientais

de cores luxuriantes!


 Sons ritmados dolentes,

num sensualismo intenso,

vibram misticismos decadentes

por entre nuvens de incenso.


Longos, esguios, estáticos,

entre as ondas vermelhas do cetim,

dois corpos esculpidos em marfim

soergueram-se nostálgicos,

sonâmbulos e enigmáticos…


Os seus perfis esfíngicos,

e cálidos

estremeceram

na ânsia duma beleza pressentida,

dolorosamente pálidos!


Fitaram-se as bocas sensuais!

Os corpos subtilizados,

femininos,

entre mil cintilações

irreais,

enlaçaram-se

nos braços longos e finos!

..............................................................

E morderam-se as bocas abrasadas,

em contorções de fúria, ensanguentadas!

...............................................................

Foi um beijo doloroso,

a estrebuchar agonias,

nevrótico ansioso,

em estranhas epilepsias!

...............................................................

Sedas esgarçadas,

dispersão de sons,

arco-íris de rendas

irisando tons...

...............................................................

E ficou no ar

a vibrar

a estertorar,

incandescido,

um grito dolorido.

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A Minha Amante



"............................... a dor

só lhe perco o som e a cor

em orgias de morfina!"



Dizem que eu tenho amores contigo!

Deixa-os dizer!...

Eles sabem lá o que há de sublime,

Nos meus sonhos de prazer...


De madrugada, logo ao despertar,

Há quem me tenha ouvido gritar

Pelo teu nome...


Dizem - e eu não protesto -

Que seja qual o for o meu aspeto

Tu estás na minha fisionomia

E no meu gesto!


Dizem que eu me embriago toda em cores

Para te esquecer...

E que de noite pelos corredores

Quando vou passando para te ir buscar;

Levo risos de louca, no olhar!


Não entendem dos meus amores contigo -

Não entendem deste luar de beijos...

- Há quem lhes chame a tara perversa,

Dum ser destrambelhado e sensual!

Chamam-te o génio do mal -

O meu castigo...

E eu em sombras alheio-me dispersa...


E ninguém sabe que é de ti que eu vivo...

Que és tu que doiras ainda,

O meu castelo em ruínas...

Que fazes da hora má, a hora linda

Dos meus sonhos voluptuosos -

Não faltas aos meus apelos dolorosos...

- Adormenta esta dor que me domina!


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- Judith Teixeira

In Decadência, 1923